quinta-feira, 26 de março de 2015

PROFESSOR ANTONIO ROBERTO

CONTO DO PROFESSOR ANTÔNIO ROBERTO

...TEM BOI NA LINHA...

           Dias atrás encontrei no portão de minha casa alguns protótipos de ingressos de circo. Prometiam desconto no preço das entradas mediante apresentação daqueles papeis. Joguei-os fora e segui absorto, de repente ao dobrar a primeira esquina deparei-me com três palhaços sentados no chão à sombra das acácias. Alegres, em papo animado separavam as ditas propagandas para jogarem nas entradas das casas. Observei-os rapidamente. Todos pintados e usavam modernos tênis, perucas de plásticos e estavam relativamente bem vestidos. Dias antes eu vira uma camionete cheia de anões vestidos da mesma forma. Mais uma vez mergulhei no passado e lá estava eu no começo dos anos sessenta.
         Hoje tem espetáculo? Tem “sinsinhor”. Às oito horas da noite? É sinsinhor. E arrocha “negada”! EHHH! Arrocha negada! EHHH!
         E o palhaço o que é? É ladrão de “muié”! E o palhaço na rua? É ladrão de perua! Arrocha negada! EHHH!

         Oi nasce o Sol esconde a Lua. “Oia” o palhaço no meio da rua. Arrocha negada! EHHH!
        E lá vinha equilibrando-se nas pernas de pau com um “megafone” de lata, seguido por uma turma de meninos. Meninos que “gritavam o palhaço” e eram marcados com uma tinta para entrarem de graça no circo. E lá vinha ele, um "cara pintada" a repetir: Hoje no Grande Circo do Fadiga a estreia sensacional do Grande Espetáculo com equilibristas, trapezistas, dramas e o grande palhaço Fadiga. Não percam logo mais ás oito horas da noite. Hoje tem espetáculo? Tem sinsinhor! Às oito horas da noite? É sinsinhor! Arrocha negada! EHHH!
        E para lá acorreu toda a nossa geração. O Grande Circo não passava de um pequeno palco rodeado por uma empanada sem cobertura e cercado por uma vigiada cerca de arame para prevenir dos penetras. Quem não tinha namorada aproveitava para paquerar. Mas a atenção maior era para as batidas de metal que anunciavam a proximidade do inicio do Grande Espetáculo.
        Um indivíduo entrou no picadeiro e pediu silencio para a plateia que lotava todas as cadeiras e todos os “puleiros” (arquibancadas), além dos que estavam em pé. Com os senhores e senhoras de Nova Russas o grande palhaço Fadiga! O grande palhaço Fadiga! Fadiga! Cadê você? Insistia o homem que seria o coadjuvante do Fadiga.
        Depois de uma fingida relutância ele entrou. Entrou e “ganhou” a todos. Risos e mais risos. Risos de todas as idades. Ali estava o talento. Talento que nos fez rir durante meses. Talento que fazia dos mais simples improvisos uma grande hilaridade.
        A estação chuvosa chegou, mas, o circo já estava coberto. As chuvas copiosas caiam enquanto riamos. “Tem boi na linha tem, tem, tem”.
         “Tem boi na linha Catarina vem no trem” Cantava a atriz V8.
        “Fadiga tu num te alembra do dia qui nóis casou”. Fadiga: A festa foi no terreiro qui até as véia dançou.
         Fadiga tu num te alembra do dia qui nóis casou! Fadiga: “A rede veia comeu foi fogo foi com nóis dois prá lá e prá cá”...

*Antônio Roberto Mendes Martins - Mestre em Física – Professor Universitário (UFC) novarrussense – residente em Nova-Russas.

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